o problema das comédias românticas atuais

By Lívia Medeiros - 16:20

O que faz um livro de comédia romântica ser bom de verdade? Vamos aprender a classificar e valorizar esse subgênero que tanta gente julga errado.

Imagine isso: você está vagando pelo seu aplicativo de streaming favorito, ou até pela Amazon, dando uma conferida nos títulos e capas ou pôsteres, e se atrai por algo, clica e vê que é uma comédia romântica. Legal! Você ama romances engraçados e fofos!; eles te fazem lembrar de uma época mais simples, de uma Sessão da Tarde, infância, enfim. Você dá play, mas algo não parece muito certo… Por quê?

Como uma autora de romances, levo as romcoms muito a sério. Passei alguns anos tentando entender meu estilo de escrita até que cheguei ao que pode ser um grande objetivo de vida: levar leveza para o público, o romance e a diversão. Quero trazer nostalgia ao leitor e escrever de fato o foco das duas palavras “comédia” e “romance”.

Vou ser mais pessoal nesse artigo (pode ser um desabafo.) Com a enorme gama de livros disponíveis a qualquer hora, é muito fácil se perder nas tags, nos tropes, no que você achar melhor falar.

As redes sociais inventam palavras novas a cada dia e, para as editoras e os autores, fica difícil acompanhar o mercado. Os leitores preferem saber o que vão encontrar, mas existem tantas variáveis e problemas (que vamos discutir aqui hoje), por exemplo: seu livro é mesmo um “de inimigos à amantes” ou eles só não se gostam por um motivo bobo? Inimigo é uma palavra meio forte, mas querendo ou não, vende.


Afinal, julgamos sim um livro pela capa.

Hoje, com os livros contemporâneos — e filmes também — muitos autores acabam classificando seus livros erroneamente. Eles colocam as tags certas para atrair o público errado, e isso particularmente é algo que me incomoda bastante. Se há algo que me irrita, é me atrair pelo livro de capa fofinha e me ver lendo 10 xingamentos a cada linha, ou cenas de sexo jogadas na sua cara de capítulo a capítulo. Veja bem, eu não sou nada puritana, mas isso não é algo que condiz, de fato, com o gênero que o autor escolheu.

Certa vez, na livraria, uma mulher parou para me perguntar a minha opinião sobre um livro de capa rosa clara. “Quero dar de presente pra minha filha de dez anos. Será que ela pode ler?”. Não é muito comum pessoas olharem a classificação indicativa que as editoras fazem questão de esconder na contracapa (era um +16), e eu, que já havia lido, disse para escolher outro porque continha algumas cenas bem explícitas. Procurei rapidinho algo mais apropriado para ela, que me agradeceu e seguiu em frente.

Por que isso acontece?

Não sou uma especialista em mercado editorial, mas sou alguém que gosta de observar tudo, assistir a vídeos e ainda acompanhar o mundo literário há mais de dez anos. Acredito que com a ascensão de A Hipótese do Amor, as capas dos livros foram copiando esse molde: casal fofo, ilustração, cores chamativas por fora; por dentro: humor (talvez?), romance e cenas de sexo, nem que sejam uma ou duas bem explícitas e algumas preliminares intensas espalhadas.

Não estou aqui para condenar ninguém: é só olhar a capa dos meus livros. Acho interessante esse fenômeno, até meio preocupante. Para mim, gosto de capas ilustradas porque acho as capas de imagens reais (aquelas fotos do Getty Images) muito bregas. Pode ser meu cérebro Gen Z falando, mas enfim, não cresci lendo esse tipo de gênero. Quando cheguei aos meus 18 anos, a Ali Hazelwood começava o seu império.

Harry e Sally - Feitos Um para o Outro (1989)


A questão é também acabar fazendo um “clickbait” e enganação dos cliques, das compras. Se sua capa for fofinha demais e com um conteúdo bem explícito, das duas uma: você precisa de uma amiga que te dê um toque ou talvez não saiba muita coisa sobre marketing — não é sua obrigação saber sobre marketing, então vamos procurar referências melhores, certo? Vamos ver a lista: Seus personagens adultos parecem adultos? Eles se beijam? Estão se tocando? Isso pode revelar mais do que parece.

E por dentro, seu texto é leve e tem temas profundos? Você é engraçado? A construção e ordem da narrativa fazem sentido? Seu livro tem identidade? Bem, precisamos sempre saber desses pontos.

Mia Jones Não Ama Ninguém | ilustração


Evolução das romcoms

Meu objetivo, agora, é dissecar um pouco do que está por trás das romcoms e sua magia. Vou abordar filmes, mas acredito que a construção de roteiro pode se aplicar também a outros meios.

As raízes do gênero partem lá de William Shakespeare com suas peças Muito Barulho por Nada e Noite de Reis. Shakespeare adorava colocar casais nas confusões mais absurdas; na maior parte do tempo, seus protagonistas não se gostavam ou, se isso acontecia, tinham de lidar com idas e vindas. Jane Austen também nos trouxe Orgulho e Preconceito: uma história com a escrita inteligente e divertida, com Lizzie sendo uma mocinha sagaz até demais e que detesta aquele que (supostamente) também a despreza: o Sr. Darcy.

Os romances não aconteciam por nada; eram construídos lentamente com o desenvolvimento de seus personagens bem-feitos, repletos de camadas e os quais entravam em conflitos morais. Essas obras marcaram tanto que tivemos o filme 10 Coisas que eu odeio em você (1999) — adaptando Shakespeare — e o livro O Diário de Bridget Jones, de 1996, que logo virou um filme homônimo anos depois. Ambos os filmes viraram clássicos do romance. Coincidência? Acho que não.

10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999)


O problema das tags (ou classificação de gênero)

Não estamos aqui para condenar livros com personagens adultos em que as cenas de sexo são explícitas, até porque eu seria hipócrita — praticamente 90% dos meus livros têm uma ou duas cenas assim —, mas sim entender qual é o público que vai atingir. Se você, autor, está classificando como uma comédia, é óbvio que o leitor vai esperar algo leve e divertido, algo que possa fazê-lo sorrir e balançar as pernas no ar, não porque é bobo e clichê, mas porque esse é o objetivo. Precisamos desse subgênero do romance quando queremos nos apegar a algo seguro nos momentos difíceis!

Queremos o De Repente 30, o Harry e Sally ou Vestida para Casar. Todos estes filmes com adultos que se constroem aos poucos até o último grande momento. Há autoras contemporâneas que admiro muito pela escrita e pelos seus romances: Abby Jimenez, Katherine Center e a dupla G.B. Baldassari. Todas fazem livros sensacionais onde o foco é mais nas mocinhas do que no amor por si só; elas são desastradas, engraçadíssimas, determinadas, trabalham duro e ainda assim conseguem achar um grande amor.

O Diário de Bridget Jones (1996) inspirado em Orgulho e Preconceito


Ao chegar ao fim deste texto, percebo como pode parecer difícil fazer essa construção, mas não é isso. Então aqui vão duas dicas:

Para autores: Precisamos rever as tags dos livros — sim, aquela que você registrou na Biblioteca Nacional para o ISBN e na Amazon também.

Para leitores: se puderem, peguem uma amostra grátis do livro antes de comprar ou deem aquela boa folheada na livraria, vejam se a escrita agrada ou se é algo totalmente diferente do que parece.

Este artigo foi focado em livros, mas o próximo será sobre filmes! Vamos analisar tudo o que uma romcom precisa ter de bom e sua evolução no cinema.

Até a próxima!

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