quando a memória passou a morar no bolso

By Lívia Medeiros - 07:18

Poucas coisas são tão divertidas quanto sair de uma sala de cinema, sentar numa mesa do shopping e discutir sobre o filme com alguém. No meu caso, eu havia acabado de sair da sessão de A Odisseia (2026) com o meu namorado e uma expressão totalmente feliz no rosto e com vontade de assistir ao filme mais uma vez. Fomos até nosso novo “restaurante” favorito e conversamos tanto que o assunto virou esse texto que vocês estão lendo agora.

Mas vamos começar por partes: o que o Christopher Nolan tem a ver com meu — e o seu — álbum de fotos?

Não preciso contextualizar mais sobre A Odisseia nem como todos os filmes de Nolan são grandiosos. Este em particular tem uma filmagem ainda mais bonita do que qualquer expectativa sua, um roteiro bem feito e completo, mais voltado para grandes massas onde o espectador não precisa bater a cabeça demais para entender (lê-se: Interestelar e A Origem). Mas, acima de tudo, ele captura a sua atenção.

Foi uma daquelas raras vezes — nesta década — em que uma sala inteira de cinema ficou lotada e em silêncio. Sem luzes de celular. Sem conversas paralelas. Apenas a imersão completa numa obra de quase 3 horas de duração.

Não é novidade que empresas de streaming (Netflix, Prime Video, etc.) exigem cada vez mais que seus roteiristas escrevam diálogos e cenas repetitivas, expositivas demais, para seus espectadores assistirem com o celular na mão.

Essa é a tal da “segunda tela”. As empresas sabem que seus clientes não prestam atenção em mais nada, mantêm seus cérebros “apodrecendo” (brainrot) e assim por diante. Graças a isso, temos a prova de que Nolan se contrapõe a tudo isso; com A Odisseia ele se mostra capaz de entregar uma história popular, chamativa, mas ainda prioriza a Arte do Cinema viva. É um filme que, quando você volta para casa e dá play em qualquer filme basiquinho da Netflix, você tem a plena noção de que “falta muito recheio nesse bolo”.

Minhas analogias geralmente têm a ver com doces.

Não estou culpando as empresas de streaming. Na verdade, não sabemos a quem culpar primeiro. Tudo é uma disputa por atenção contra as redes sociais hoje em dia. Infelizmente, até se você trabalha em alguma empresa aleatória (vamos supor uma padaria), eventualmente as redes sociais vão entrar no seu dia a dia. O Instagram virou o catálogo de restaurantes, médicos, artistas e por aí vai.

O problema não está só no cinema, mas no nosso dia a dia com qualquer experiência. Não existe mais “aproveitar o momento” sem o disparo de dezenas de fotos: aniversários, casamentos, viagens, shows. Parece uma obrigação registrar tudo para não esquecer quando, na verdade, acabamos não lembrando de nada por conta própria.

Quantas pessoas realmente assistem a um show inteiro sem olhar para o celular? Quando foi a última vez que você não soube onde estava o seu celular? Se todos os momentos são “importantes”, então nada é importante.

Talvez estejamos vivendo o sonho dos nossos pais e avós: poder registrar todos os momentos de forma ilimitada, com detalhes e ângulos variados. Antes dos smartphones, se revelavam poucas fotos das câmeras digitais por serem muito caras; na época das câmeras de filme, pior ainda — os filmes possuíam 20 ou 30 quadros, no máximo.

Mas talvez isso fosse mais especial: saber que o único registro precisa ser bom e capturar uma memória. Você, se se lembrar daquele dia, se lembra com muito mais riqueza de detalhes do que se tivesse 40 fotos na sua galeria.

“Isso evita que eu fique olhando para o meu celular a cada dois segundos.” | Liam Francis Walsh

Assistir a um filme no cinema, ler um livro ou assistir a um show podem ser experiências mais especiais do que achamos se ficarmos parados, imersos.

Veja bem, não falo sobre condenar o presente e as tecnologias e voltar ao analógico. Talvez só precisemos saber como parar e respirar um pouco sem a dependência absoluta de um aparelho. A vida é bonita se olharmos para cima e virmos a paisagem.

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