Um dos livros que viraram minha maior obsessão no último ano foi A Amiga Genial (no momento, estou prestes a começar o último livro), e é uma daquelas histórias com protagonistas tão reais, palpáveis e imperfeitas que você, leitor, sente raiva delas. Pior ainda: você sente raiva porque se identifica demais.
Para contextualizar, a tetralogia conta a história de Lenu, que, já idosa, descobre que sua melhor amiga, Lila, desapareceu. Ela não parece preocupada com isso e começa a escrever sua história com Lila. Nós voltamos no tempo para quando ambas eram crianças, conhecemos seu bairro pobre em Nápoles e toda a vida difícil, seus vai-e-vens da amizade, todos os problemas e momentos felizes. É uma narrativa altamente focada nelas, em como sofrem tudo o que o mundo da Itália nos anos 1960 cai sobre seus ombros.
Visto que estamos lendo tudo do ponto de vista da Lenu, além de ela não ser uma narradora confiável, sabemos de seus sentimentos mais fortes por sua melhor amiga. Lenu sempre foi a garota tímida, quieta, estudiosa e que sonha em ir embora do lugar onde cresceu, mas sem se impor demais, sem ser agressiva ou qualquer sinônimo do tipo; Lila era a rebelde do bairro, uma força incontrolável desde sempre, e todos sabiam disso.
Por vezes Lenu admira a amiga (e nós também), mas eis o grande problema: Lenu sente muita inveja de Lila - a ponto de ela desejar ser como Lila, desejar sua atenção e todos os âmbitos em volta disso. Ao contrário de Lenu — que se matava de estudar, mantinha o foco na escola, no trabalho etc. — Lila não precisava “se esforçar” para ser inteligente. Se ela quisesse aprender uma língua, só começava e pronto; se não ia à escola durante 1 mês, isso não era problema porque sempre tirava notas boas no fim.
Lila sempre foi “a amiga genial”, até que chegamos ao fim do livro 1 e sabemos o quanto ela própria admirava (surpresa) Lenu! Parece até mentira, mas não. Lenu se sente tão pequena perto da amiga que fica com raiva dela durante basicamente toda a vida; as duas estão o tempo todo se apoiando e se esfaqueando pelas costas.
E isso parece um pouco familiar…
É o tipo de relacionamento que, provavelmente, apenas mulheres vão entender. Todo mundo teve alguma amiga, vizinha, prima ou até uma mulher desconhecida que admirava e sentia inveja ao mesmo tempo. Aquela sensação de não saber se “quero ser você” ou “queria que você desaparecesse da minha vida”. Acho que não precisamos nos esforçar demais para lembrar daquela garota que sempre tirou as melhores notas na escola, que estudou “pouco” e conseguiu o que queria de um jeito fácil, ou até é tão mais bonita que é a sorte do destino/genética.
Hoje, com a internet, é pior ainda. Por que eu não tenho esse carro, maquiagem, casa, dinheiro, roupa, aparência, celular, profissão, relacionamento…?
É isso que a Lenu sente o tempo todo, e é isso que eu senti e sinto até hoje com pessoas diferentes (com pessoas próximas e desconhecidas). Sempre que leio as palavras de Lenu, me sinto acolhida ou me vejo num espelho, me sinto podre, estranha, culpada, tudo ao mesmo tempo. Nós somos ensinadas que a inveja é algo ruim e sujo, e é mesmo.
Mas e agora, o que a gente pode fazer para acabar com isso? É muito provável que haja explicações da psicanálise sobre o assunto, mas o que vou concluir aqui se dá apenas em algo pessoal meu (afinal, sou escritora por amor e modista por formação, não sei quase nada sobre psicologia). (Também vamos ignorar o fato de que parte dessa inveja se dá ao capitalismo no nosso mundo, aos bens materiais, etc etc).
Bem, para mim, isso é um exercício mais voltado para o “karma” e para impor limites em mim mesma: se você é minha colega e eu te vejo de longe, ou seja, não tenho muito contato com você, eu não vou querer saber nada da sua vida - até porque o que sei são fotos em redes sociais; a solução seria silenciar tudo dessa pessoa e evitar o ciclo vicioso de: entrar no perfil, ver tudo, pensar demais, se sentir mal, e assim por diante. Como disse, é um vício mesmo, algo que não podemos largar tão facilmente - aquele docinho depois do almoço, a compra nos aplicativos, a bebida, o cigarro. Se não colocar um limite, só vai piorar.
Agora, para pessoas próximas, vai ser uma questão de carma mesmo, quer você acredite ou não, pode ser um bom exercício mental. Pense que você não sabe da vida dessa pessoa por completo, suas dificuldades, sua rotina, e essa pessoa talvez não tenha culpa de ser tão inteligente ou de ter muito dinheiro, tempo, etc. Se no fim ela for mesmo sua amiga, temos de torcer por ela, desejar o melhor, conversar, perguntar e o mais difícil: tentar não se comparar. Vamos parar de pensar no “quero a vida dela” para pensar “quero construir algo melhor para mim, então como eu posso fazer isso?”.
Uau, esses parágrafos pareceram algo que um coach tóxico falaria - mas acho que é verdade. Pelo menos para mim funcionou, e acho que se eu tivesse a oportunidade de falar com a Lenu e sacudir seus ombros, talvez diria a mesma coisa a ela.
Não é fácil, mas sempre dá pra melhorar.
Eu acho.






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