![]() |
Por trás de toda mulher, há raiva. Por trás de toda escritora, há uma mente repleta de personagens completamente malucas.
Eu não digo “malucas” à toa. existem muitos arquétipos para as mulheres na cultura pop — a patricinha, a esquisita, a nerd — e, claro, aquela mulher meio doida. Talvez essa seja a minha caixinha favorita.
Assim que comecei a escrever livros de ficção científica — os quais eu juro serão publicados um dia — percebi que muito do que eu expressava nas protagonistas partia de um sentimento cru e estranho meu. Foi diferente de personagens de romances, por exemplo. E sim, as “mocinhas” dos romance também têm seus altos e baixos, mas senti que pela primeira vez poderia colocar todos os sentimentos “ruins” para fora sem ser julgada diretamente, como se essas mulheres fossem um filtro, ou melhor ainda: um canal de transmissão.
Mas vamos voltar ao início. Prometo que vai fazer sentido.
![]() |
| Garota Exemplar (2014) |
Meus (futuros) livros de ficção científica surgiram, de início, pela estética futurista. Sempre amei filmes cyberpunk, space opera, etc (tanto que até virou tema de TCC), e meu amor por esse gênero se transformou em um grande conjunto de quase 400 mil palavras em 4 histórias diferentes. Enfim…
Algo que conecta a construção de mundo e a estética destes livros são as protagonistas femininas. Todas são mulheres diferentes, com passados — infelizmente — sombrios, motivadas por vingança, sobrevivência, amor ou, simplesmente, fúria. Não há muito mais o que explicar: são mulheres que passaram por muita coisa na vida e agora têm a chance de conseguir uma vitória, mesmo que mínima. Se elas encontram algo bom no meio do caminho é lucro.
O livro principal dessa série me emociona muito: Quatro mulheres se reúnem para uma missão arriscada, cada uma com objetivos diferentes e ainda percebem que gostam uma das outras. Elas viram a família que nunca tiveram. E melhor disso? Elas não se julgam, o objetivo nunca muda (é um motivo bem duvidoso). Para onde a moral e a ética foram? Não importa. Elas conseguem o que querem, e é bem satisfatório no final. O leitor não vai ler esperando uma possível redenção ou lição estilo fim de episódio do He-Man. Não mesmo. Elas estão ali para brigar e xingar. Ponto.
![]() |
| Kill Bill (2004) |
Depois do primeiro rascunho lá em 2022, nunca mais parei. Escrevi protagonistas mais furiosas e ambiciosas, e não há tanta necessidade de criar essa lição para o leitor no fim. Às vezes, o que essas personagens (e nós, mulheres) precisam é sentir tudo do modo mais intenso possível porque, caramba, a vida já é difícil demais para aguentar o tempo todo. Às vezes, tudo o que você precisa é desabar.
Em 2025 comecei a rascunhar outro livro de ficção científica e as personagens principais são pessoas envolvidas em um mundo de violência. Aqui está um trecho:
“Ela desferiu um golpe atrás do outro com a maior força que podia, tanto que *** soltou alguns xingamentos e quase saiu para fora do tapete. Mesmo assim, a mulher ficou impressionada. As habilidades de **** aumentaram muito desde que tivera dois anos para descontar suas frustrações na força bruta.” [Trecho do livro misterioso que deve ser lançado em 2028]
De certa forma, criar e consumir esse tipo de narrativa se torna algo quase terapêutico. O tabu da “inversão de papéis” incomoda, claro, mas ainda cativa àqueles que ainda não tiveram acesso ao conteúdo. A raiva feminina — e a tristeza e expressão de sentimentos masculina — sempre vai causar certo estranhamento, porém se torna satisfatório. Não é todo dia que você, pessoa real, tem a chance de colocar o que sente para fora — até porque, vamos ser honestas, se uma mulher quiser se revoltar minimamente em prol dos seus direitos é capaz de ela ser apedrejada e até presa.
Somos fascinadas por essa raiva porque passamos a vida inteira sendo taxadas de (pasmem) malucas! Qualquer tom de voz mais alto, qualquer sinal de emoção é um julgamento. Assim que conseguimos mostrar o quão profundas somos, isso causa estranhamento àqueles que nos odeiam e satisfação aos que se assemelham a nós.
Há uma entrevista da atriz Anya Taylor Joy que eu adoro. No filme O Menu (2022) ela faz uma protagonista estilo ‘final girl’, aquela que sobrevive no final. Sobre isso, ela diz que a raiva feminina é algo importante quando atua — até mesmo considerando todo o histórico de sua personagem com o seu “par romântico” e tudo o que ele a fez passar:
“Eu tenho algo sobre raiva feminina [...] eu vejo muitos homens fazendo coisas horríveis e mulheres ficam em silêncio com uma lágrima escorrendo devagar e eu fico ‘oh não não não’ nós ficamos malucas e com raiva. Eu disse ao (diretor) Mark (Mylod) ‘me desculpe, mas o único jeito de atuar nessa cena de forma verdadeira é atacando ele (Nicolas Holt).’” [tradução livre].
![]() |
Em outra entrevista, Taylor-Joy fala: “Ganhei certa reputação por lutar pela fúria feminina, o que é estranho, porque não estou promovendo a violência, mas sim promovendo que as mulheres sejam vistas como pessoas. Temos reações que nem sempre são delicadas ou impecáveis.”
Medeia, de Eurípedes, é um dos primeiros exemplos de fúria feminina da literatura. Ao dar fim aos próprios filhos e recusar ser submissa, ela rompe o papel tradicional de mãe e esposa. “É, na verdade, possível observar durante a peça de Eurípides diversos momentos em que a mãe mostra afeto pelos filhos e hesita quanto a prosseguir com seu plano. Porém, sua necessidade de se vingar do marido e impedir que seus inimigos a vejam como uma piada prevalece.” - Querido Clássico.
![]() |
“O meu marido, que era tudo para mim – isso eu sei bem demais —, tornou-se um homem péssimo. Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras”. (Medeia, versos 255 à 300)
No fim do dia, não é surpresa nenhuma que mulheres sintam raiva. Os índices de feminicídio (só no Brasil) crescem mais a cada dia. Não nos sentimos seguras para andar em público sozinhas ou acompanhadas, estando dentro ou fora de casa. O mundo virou nosso maior inimigo.
Veja bem, não estou dizendo que você, leitora, deve sair por aí fazendo o que der na telha. Estou fazendo uma análise e dando exemplos desse fenômeno e como se expressar criativamente pode ser bom para a alma, para seu trabalho. É importante que nós tomemos o espaço que nos fora tirado desde os primórdios do tempo, cada uma faz isso da sua forma.
Não se impressionem quando, um dia, eu publicar a história de uma vilã que se dá bem no final. Ela meio que tem razão.
“Vergonha à falsidade dos homens, cujas mentes muitas vezes enlouquecem e cujas línguas, mal conseguem falar, logo se lançam em insultos. Já houve alguém tão abusada, tão caluniada, tão insultada ou tão maltratada injustamente como nós, mulheres?” - Jane Anger (1589)
Até a próxima!
Referências:
ANGER, Jane. Jane Anger her Protection for Women. London: Printed by Richard Jones and Thomas Orwin, 1589.
ANYA Taylor-Joy fights for female rage on screen. The Hollywood Reporter, [S. l.], 23 maio 2024. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/anya-taylor-joy-fights-female-rage-on-screen-1235906843/. Acesso em: 26 maio 2026.
FEMINICÍDIO: Brasil registra recorde histórico em 2025. [S. l.]: Canal G1, 9 mar. 2026. 1 vídeo (x min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-sk3yFOxEDY. Acesso em: 26 maio 2026.
O HORROR da fúria feminina em três obras clássicas. Querido Clássico, [S. l.], [202-?]. Disponível em: www.queridoclassico.com/2023/10/o-horror-da-furia-feminina-em-tres-obras-classicas.html. Acesso em: 26 maio 2026.
POR QUE temos medo da raiva feminina?. Direção: Rita de Podestá. [S. l.]: Canal Tempero Drag, 8 mar. 2019. 1 vídeo (15 min 21 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LwHOqEvr6m4
Acesso em: 26 maio 2026.






0 comments