a raiva feminina e narrativas apavorantes

By Lívia Medeiros - 06:00

Auguste Toulmouche, A Noiva Relutante, 1866, coleção particular. Wikimedia Commons (domínio público).

Por trás de toda mulher, há raiva. Por trás de toda escritora, há uma mente repleta de personagens completamente malucas.

Eu não digo “malucas” à toa. existem muitos arquétipos para as mulheres na cultura pop — a patricinha, a esquisita, a nerd — e, claro, aquela mulher meio doida. Talvez essa seja a minha caixinha favorita.

Assim que comecei a escrever livros de ficção científica — os quais eu juro serão publicados um dia — percebi que muito do que eu expressava nas protagonistas partia de um sentimento cru e estranho meu. Foi diferente de personagens de romances, por exemplo. E sim, as “mocinhas” dos romance também têm seus altos e baixos, mas senti que pela primeira vez poderia colocar todos os sentimentos “ruins” para fora sem ser julgada diretamente, como se essas mulheres fossem um filtro, ou melhor ainda: um canal de transmissão.

Mas vamos voltar ao início. Prometo que vai fazer sentido.

Watch Gone Girl | Disney+
Garota Exemplar (2014)

Meus (futuros) livros de ficção científica surgiram, de início, pela estética futurista. Sempre amei filmes cyberpunk, space opera, etc (tanto que até virou tema de TCC), e meu amor por esse gênero se transformou em um grande conjunto de quase 400 mil palavras em 4 histórias diferentes. Enfim…

Algo que conecta a construção de mundo e a estética destes livros são as protagonistas femininas. Todas são mulheres diferentes, com passados — infelizmente — sombrios, motivadas por vingança, sobrevivência, amor ou, simplesmente, fúria. Não há muito mais o que explicar: são mulheres que passaram por muita coisa na vida e agora têm a chance de conseguir uma vitória, mesmo que mínima. Se elas encontram algo bom no meio do caminho é lucro.

O livro principal dessa série me emociona muito: Quatro mulheres se reúnem para uma missão arriscada, cada uma com objetivos diferentes e ainda percebem que gostam uma das outras. Elas viram a família que nunca tiveram. E melhor disso? Elas não se julgam, o objetivo nunca muda (é um motivo bem duvidoso). Para onde a moral e a ética foram? Não importa. Elas conseguem o que querem, e é bem satisfatório no final. O leitor não vai ler esperando uma possível redenção ou lição estilo fim de episódio do He-Man. Não mesmo. Elas estão ali para brigar e xingar. Ponto.

Kill Bill: The Whole Bloody Affair estreia este ano com uma sequência em  anime nunca antes vista — mas exclusivamente nos EUA
Kill Bill (2004)

Depois do primeiro rascunho lá em 2022, nunca mais parei. Escrevi protagonistas mais furiosas e ambiciosas, e não há tanta necessidade de criar essa lição para o leitor no fim. Às vezes, o que essas personagens (e nós, mulheres) precisam é sentir tudo do modo mais intenso possível porque, caramba, a vida já é difícil demais para aguentar o tempo todo. Às vezes, tudo o que você precisa é desabar.

Em 2025 comecei a rascunhar outro livro de ficção científica e as personagens principais são pessoas envolvidas em um mundo de violência. Aqui está um trecho:

Ela desferiu um golpe atrás do outro com a maior força que podia, tanto que *** soltou alguns xingamentos e quase saiu para fora do tapete. Mesmo assim, a mulher ficou impressionada. As habilidades de **** aumentaram muito desde que tivera dois anos para descontar suas frustrações na força bruta. [Trecho do livro misterioso que deve ser lançado em 2028]

De certa forma, criar e consumir esse tipo de narrativa se torna algo quase terapêutico. O tabu da “inversão de papéis” incomoda, claro, mas ainda cativa àqueles que ainda não tiveram acesso ao conteúdo. A raiva feminina — e a tristeza e expressão de sentimentos masculina — sempre vai causar certo estranhamento, porém se torna satisfatório. Não é todo dia que você, pessoa real, tem a chance de colocar o que sente para fora — até porque, vamos ser honestas, se uma mulher quiser se revoltar minimamente em prol dos seus direitos é capaz de ela ser apedrejada e até presa.

Somos fascinadas por essa raiva porque passamos a vida inteira sendo taxadas de (pasmem) malucas! Qualquer tom de voz mais alto, qualquer sinal de emoção é um julgamento. Assim que conseguimos mostrar o quão profundas somos, isso causa estranhamento àqueles que nos odeiam e satisfação aos que se assemelham a nós.

Há uma entrevista da atriz Anya Taylor Joy que eu adoro. No filme O Menu (2022) ela faz uma protagonista estilo ‘final girl’, aquela que sobrevive no final. Sobre isso, ela diz que a raiva feminina é algo importante quando atua — até mesmo considerando todo o histórico de sua personagem com o seu “par romântico” e tudo o que ele a fez passar:

“Eu tenho algo sobre raiva feminina [...] eu vejo muitos homens fazendo coisas horríveis e mulheres ficam em silêncio com uma lágrima escorrendo devagar e eu fico ‘oh não não não’ nós ficamos malucas e com raiva. Eu disse ao (diretor) Mark (Mylod) ‘me desculpe, mas o único jeito de atuar nessa cena de forma verdadeira é atacando ele (Nicolas Holt).’” [tradução livre].

O Menu | Crítica por Pablo Villaça - Cinema em Cena
O Menu (2022)

Em outra entrevista, Taylor-Joy fala: “Ganhei certa reputação por lutar pela fúria feminina, o que é estranho, porque não estou promovendo a violência, mas sim promovendo que as mulheres sejam vistas como pessoas. Temos reações que nem sempre são delicadas ou impecáveis.”

Medeia, de Eurípedes, é um dos primeiros exemplos de fúria feminina da literatura. Ao dar fim aos próprios filhos e recusar ser submissa, ela rompe o papel tradicional de mãe e esposa. “É, na verdade, possível observar durante a peça de Eurípides diversos momentos em que a mãe mostra afeto pelos filhos e hesita quanto a prosseguir com seu plano. Porém, sua necessidade de se vingar do marido e impedir que seus inimigos a vejam como uma piada prevalece.” - Querido Clássico.

Frederick Sandys - Medea, 1866-1868

“O meu marido, que era tudo para mim – isso eu sei bem demais —, tornou-se um homem péssimo. Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras”. (Medeia, versos 255 à 300)

No fim do dia, não é surpresa nenhuma que mulheres sintam raiva. Os índices de feminicídio (só no Brasil) crescem mais a cada dia. Não nos sentimos seguras para andar em público sozinhas ou acompanhadas, estando dentro ou fora de casa. O mundo virou nosso maior inimigo.

Veja bem, não estou dizendo que você, leitora, deve sair por aí fazendo o que der na telha. Estou fazendo uma análise e dando exemplos desse fenômeno e como se expressar criativamente pode ser bom para a alma, para seu trabalho. É importante que nós tomemos o espaço que nos fora tirado desde os primórdios do tempo, cada uma faz isso da sua forma.

Não se impressionem quando, um dia, eu publicar a história de uma vilã que se dá bem no final. Ela meio que tem razão.

“Vergonha à falsidade dos homens, cujas mentes muitas vezes enlouquecem e cujas línguas, mal conseguem falar, logo se lançam em insultos. Já houve alguém tão abusada, tão caluniada, tão insultada ou tão maltratada injustamente como nós, mulheres?” - Jane Anger (1589)

Até a próxima!

Referências:

ANGER, Jane. Jane Anger her Protection for Women. London: Printed by Richard Jones and Thomas Orwin, 1589.

ANYA Taylor-Joy fights for female rage on screen. The Hollywood Reporter, [S. l.], 23 maio 2024. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/anya-taylor-joy-fights-female-rage-on-screen-1235906843/. Acesso em: 26 maio 2026.

FEMINICÍDIO: Brasil registra recorde histórico em 2025. [S. l.]: Canal G1, 9 mar. 2026. 1 vídeo (x min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-sk3yFOxEDY. Acesso em: 26 maio 2026.

O HORROR da fúria feminina em três obras clássicas. Querido Clássico, [S. l.], [202-?]. Disponível em: www.queridoclassico.com/2023/10/o-horror-da-furia-feminina-em-tres-obras-classicas.html. Acesso em: 26 maio 2026.

POR QUE temos medo da raiva feminina?. Direção: Rita de Podestá. [S. l.]: Canal Tempero Drag, 8 mar. 2019. 1 vídeo (15 min 21 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LwHOqEvr6m4

Acesso em: 26 maio 2026.

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